O Mendigo é um ilustre — ou infame — personagem que me acompanha há quase 25 anos. A ideia nasceu num dia no metrô, quando entrou um sujeito que eu já tinha visto pedindo na Avenida Conceição, em Porto Alegre. Do bolso, ele puxou um bolo de notas de um real (sim, crianças, elas existiam: verdes, com um beija-flor estampado). Pela espessura, devia ter umas quinhentas. Naquele tempo, eu não conhecia ninguém que ganhasse isso em um único dia de trabalho.
Foi aí que minha concepção mudou. O que parece falta de oportunidade pode ser, para alguns, a oportunidade de ouro. Na cabeça de jovem, comecei a imaginar o cotidiano de um mendigo — mas de forma subversiva, sem glamourizar a precariedade da rua.
Desses pensamentos intrusivos nasceu o rascunho do personagem. Eu mentiria se dissesse que não tentei publicá-lo antes. Mas para as editoras eu era tão medíocre quanto ele — o que até faz sentido.
Agora, com todo demérito e sem pompa, requento esse personagem de segunda linha para vocês sofrerem de desgosto. Afinal, eu já sofro há anos com essa persona escrota rondando meus pensamentos.
P.S.: A origem do Padre… fica para outra história.

Comentários
Postar um comentário